Translate

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

A SEXUALIDADE NA HISTÓRIA


Para discorrermos sobre sexualidade, é necessário fazermos um resgate histórico da evolução sexual, abordando aspectos económicos, sociais, culturais, biológicos e religiosos nas diferentes sociedades desde os tempos mais remotos até aos nossos dias. As relações sexuais são relações sociais construídas historicamente em determinadas épocas, envolvendo valores, modelos e estruturas.
Segundo Quintella e Dietrich (1992, p.11), ao escrever a “Origem das Espécies”, Darwin afirmou que não houve nenhum acto de criação; que o Homem não fora criado à imagem e semelhança de Deus.,.
O Ramapithecus seria, dessa forma, o ancestral direto do homem e, no decorrer de milhões de anos, esse trocou a vida nas árvores pela vida no solo. Fazendo suas migrações, ia conquistando novos espaços de alimentação, pois não era capaz de produzi-los e, a caça e a pesca contribuíram para a modificação da alimentação, antes exclusivamente vegetal. A ingestão de carne forneceu-lhe uma quantidade extra de proteínas acelerando a evolução do néocortex cerebral, fonte do raciocínio e da simbologia.
O Ramapithecus precisava ser cada vez mais dinâmico para obter alimentos e lutar contra animais ferozes. Dessa forma, descobriu também, que duas mãos eram muito mais úteis que quatro pés, dispensando-as para o ato de caminhar no chão e assumindo uma postura cada vez mais ereta.
Quanto ao acasalamento, na posição primata costumeira, a fêmea apresentava o posterior ao macho atraindo-o para o intercurso breve e com finalidade instintiva.
Nessa posição, o macho possuía apenas uma visão do posterior de seu parceirosexual. A fêmea não tinha visão alguma.
Não se conhece, porém, quando os sucessores do Ramapithecus adoptaram a posição frontal de acasalamento: se pelo Australopithecus (mais macaco quehomem), se pelo Homo erectus ou pelo pré-humano Homo habilis (homem manual) ou pelo Homo sapiens (pai do homem moderno).
Entretanto, nessa nova posição, o sexo se tornava ativamente agradável e instintivamente premeditado, visando à manutenção do casal e à proteção da mulher e dos filhos. Nesse contexto, o orgasmo feminino emergiu em resposta à nova postura. Na posição frente a frente, o rosto começou a ganhar importância entre os sexos.
O hábito monogâmico foi atribuído ao fato de a fêmea não se encontrar sujeita a um ciclo estral, ou seja, a fêmea não se mostrar receptiva apenas em um ou dois dias de fertilidade, mas estar sexualmente disponível para que o macho satisfizesse seu impulso sexual, acentuando, dessa forma, a fidelidade do casal.
Por volta do ano 10000 a.C., na era paleolítica, o homem primitivo era nômade não só por necessidade como também por escolha. Quando acabava a caça e a vegetação se tornava escassa pelas mudanças climáticas, era necessário seguir em frente. A mudança, do campo aberto para as cavernas, e o domínio do fogo, tiveram um efeito revolucionário no processo humanizante e as separações e os agrupamentos deram início à ideia de família.
Segundo Campos (1981, p.5),
“as comunidades do paleolítico possuíam um certo grau de sedentarização, mas também viviam se deslocando em perseguição aos animais que caçavam. A necessidade da colaboração, principalmente para os grandes empreendimentos de caça, deve ter gerado, no final do período, o aparecimento dos primeiros clãs, famílias extensas onde várias gerações se sobrepõem. Os clãs do paleolítico eram matriarcais, uma vez que os homens, em sua atividade de caça, viviam se deslocando mais constantemente, deixando às mulheres toda e qualquer forma de governo familiar.”
O paleolítico era dominado pelo matriarcado, pelo culto e valorização do elemento feminino e assim permaneceu por milhares de anos. As mulheres possuíam o sentido da observação, da experimentação e pesquisa de novas tecnologias para a subsistência e produção da vida.
No final da era paleolítica, era “natural” para a fêmea humana ficar grávida e amamentar durante um longo tempo de sua vida adulta, como também era “natural”, homem e mulher entregarem-se ao ato sexual somente para satisfação física.
Apesar da mulher passar a maior parte de sua vida grávida, não eram muitas as crianças que chegavam a nascer. Dentre as nascidas, poucas conseguiam sobreviver pelo alto índice de desnutrição, falta de higiene e doenças.
A gravidez, nesse estágio, não incapacitava as mulheres como nas sociedades avançadas. As mulheres exercitavam-se, continuamente, recolhendo aquilo que o homem caçava. A segurança e a estabilidade provocadas pela vida em cavernas influenciaram a estrutura interna da tribo. As condições de frio eram adequadas às caças maiores, sendo necessário um empreendimento em cooperação, surgindo daí as negociações entre as tribos. Esse contato intertribal colocou um ponto final em todos os relacionamentos incestuosos, pois a união sempre dentro de um grupo social tornava inevitável a consanguinidade, onde o incesto surgia como o primeiro tabu da humanidade.
No período neolítico, que se iniciou por volta do ano 9000 a.C., homens e mulheres tornaram-se agricultores e criadores de gado modificando não apenas o padrão de existência humana como também toda a vida na terra. É no neolítico que encontramos as primeiras formas de religião. O poder é patriarcal, isto é, a família é dominada pelo homem com a função de pai e chefe. Os homens passaram a controlar o poder real, o exército, as formas de defesa, luta e guerra, o poder religioso e ideológico, assumindo funções sacerdotais e mágicas.
Nesse período, a mulher cuidava da lavoura e da casa. Engravidava e tomava conta do filho, ignorando os fatos biológicos da vida. A função biológica da menstruação era desconhecida, era inexplicável e, por não ser compreendida, era algo que causava temor. Era magia, feitiçaria ou alquimia.
Com o passar do tempo, percebeu-se que o início da menstruação era sinal de maturidade física na qual a mulher estava apta a ter filhos.
Segundo Tannahill (1983, p.48),
“se o sêmen era o catalisador místico do processo que se encerrava com o parto, então a menstruação, que demonstrava o fracasso da mulher em conceber, devia ter surgido como um insulto ou rejeição, uma sangria que negava brutalmente ao homem seu novo papel como produtor de filhos.”
O homem poderia ter um harém, se quisesse e caso pudesse defendê-lo. O conceito de “meu filho” exigia que a mulher fosse monógama, daí a necessidade de ser contida e reservada. Nessa sociedade, a mulher era propriedade do homem assim como os animais que ele pastoreava.
Estima-se que a população mundial, por volta de 9000 a.C., era de aproximadamente três milhões de habitantes. Essa explosão demográfica foi
causada por uma melhoria substancial na nutrição. Mais filho significava mais ajuda na lavoura que produzia abundantemente. Uma nutrição superior aumentava a fertilidade e a perspectiva de vida significando, para a mulher, um aumento de anos para conceber.
No final desse período, a população atingiu uma qualidade mais dinâmica, em virtude da diversidade genética, aliada a uma alimentação mais elevada e à novaauto-segurança da humanidade.
Por volta do 3º milênio a.C., na cultura hebréia, foi o homem que delineou a sociedade. Os hebreus, cuja fonte de conhecimento era a Bíblia, possuíam um Deus concebido como Homem, senhor e primeiro patriarca que exigia fidelidade exclusiva e era juiz implacável. Nessa sociedade a mulher era inferiorizada. Além de ancorar a mulher a seu lar, delimitando o relacionamento com sua família e proibindo-a de aparecer diante de estranhos, era necessário aprisionar-lhe a mente de maneira tão eficaz como o corpo. A mulher era propriedade do pai durante a infância, e do marido, a partir dos 11 ou 12 anos, quando o casamento era consumado. Esse era um contrato familiar entre senhores e a mulher possuía um preço que posteriormente se transformou em dote
A mulher, sendo propriedade do marido, encontrava-se na mesma escala dos escravos, dos bois e jumentos que, na época, eram animais valiosos.
Segundo Tannahill (1983, p.67), a esposa hebréia partilhava os favores sexuais do marido com uma ou mais esposas e concubinas secundárias, ficaria divorciada se ofendesse o marido e seria apedrejada até a morte se fosse infiel. Era a poliginia que, mais tarde, foi substituída pela monogamia. Todavia, ter mais de uma esposa dependia da consciência e das condições financeiras de cada um.
Os hebreus destinavam o sexo à procriação dos filhos, que era uma tarefa destinada por Deus. Feliz o homem cuja família era numerosa. Era sábio ter filhos, logo, a relação sexual tornava-se bem vista. O aborto era crime, pois evitando-se que um filho homem fosse trazido ao mundo, estaria sendo negado ao pai, o direito de sobreviver através do filho.
A imortalidade do povo se dava através da linhagem familiar. Ter um filho significava a continuidade pós-morte, enquanto ter uma filha era sinal de futuro prejuízo em razão do dote que o pai deveria dar ao futuro genro.
A fertilidade do casal e o cuidado adequado às crianças poderiam fazer com que o povo eleito – filhos de Israel – se multiplicasse. Um homem casado recentemente era dispensado de suas obrigações durante um ano para “ser feliz com a esposa a quem tomou” e iniciassem uma família prontamente.
Para os hebreus, o sêmen era fonte da vida e próprio do homem. A mulher, por não o ter, era considerada um vaso receptáculo da semente. Assim, a homossexualidade e a masturbação eram condenadas entre os homens, pois significavam desperdício de sêmen e forma de desagradar a Deus. Por outro lado, eram permitidas às mulheres e, muitas delas tornavam-se prostitutas, por não encontrarem outro meio para permanecerem vivas.
Entre os gregos, nobreza de espírito, simetria e beleza eram indissociáveis. Essesaspectos deveriam estar integralmente relacionados. Um não poderia viver sem o outro, pois um corpo atraente e simétrico deveria conter um espírito magno.
Os gregos criaram um mundo aventureiro e amoral. Concebiam o sexo entre os deuses fogosos e também entre um homem e um deus.
A pederastia traduzia-se na atração sexual de um adulto por um menino que já passara pela puberdade, mas ainda não atingira a maturidade. Nessa relação, o adulto tornava-se responsável pelo desenvolvimento moral e intelectual do menino tratando-o com delicadeza e afeição. Entre os gregos, a pederastia tornou-se um ramo da educação superior e não era condenada, por não ser considerada um desviante sexual. Os jovens eram alugados por hora ou em uma base contratual e havia uma vasta legislação sobre o relacionamento homem-rapaz. Sólon, no início do século VI a.C., afirmou que a pena de morte caberia àquele que fosse encontrado sem autorização, com jovens, antes da idade da puberdade. Também declarou ilegal, um escravo ter ligação com um jovem nascido livre e, qualquer homem, teria seus direitos cívicos tolhidos pelo resto da vida, se incentivasse um jovem livre a oferecer seus encantos.
Na sociedade grega, o escravo era empregado praticamente em todas as atividades econômicas, possibilitando ao cidadão grego, tempo disponível para dedicar-se às atividades culturais, políticas e físicas. Em outras palavras, graças à não-liberdade dos escravos, os cidadãos poderiam gozar da mais absoluta liberdade. Durante a era da escravatura, o trabalho físico, requisito essencial para a criação de condições materiais de existência, cabia sobretudo ao escravo, que odiava o seu trabalho e só o fazia à força.
O casamento era monogâmico não por razões religiosas, mas seculares, pois osistema de heranças e propriedades exigia origem conhecida de cada geração. No entanto, era permitido que os homens tivessem relacionamento extra-conjugal, ao contrário da mulher.
Na Grécia, as mulheres eram tratadas com desdém e não possuíam direitos políticos nem legais. Não recebiam qualquer tipo de educação formal e eram obrigadas a passar a maior parte do tempo encerradas no gineceu – aposento da casa – destinado somente a elas.
As mulheres eram submetidas ao pai e a casamentos arranjados. Não saíam sozinhas; raramente faziam refeições com os maridos e nunca, se havia convidados.
O marido poderia repudiá-la por motivos banais, mas o mesmo não aconteceria com elas, pois o adultério e a pederastia não eram considerados crimes.
Por volta do primeiro milênio a.C., a mulher era considerada um bem. Para os gregos ela era somente gyne, cujo significado é “portadora de filhos”. Os homensconsideravam todas as mulheres como irracionais (por lhes ter sido negada a instrução), hiperssexuadas (por se queixarem de que os maridos raramente dormiam com elas) e moralmente defeituosas (por criticarem os maridos ao perderem tanto tempo filosofando na Assembleia, quando deviam estar ganhando a vida fora dali).
Para os gregos, uma boa esposa deveria ser casta, sensata, saber fiar, tecer, costurar, ser capaz de administrar a casa com sabedoria e as tarefas adequadasaos empregados, gerar filhos, ser econômica com o dinheiro e bens do marido.
Nem sempre as esposas negligenciadas se queixavam, pois a despeito das dificuldades, encontravam satisfação sexual através da masturbação e da homossexualidade. Para elas a masturbação era uma válvula de segurança e, como utilizavam com frequência “olesbos” ou “dildos” (pênis artificial), estes proporcionavam a satisfação solitária tanto a elas como às tríbades (homossexuais).
Safo, diretora de uma academia para mulheres e notável poetisa, era habitante deLesbos. Sendo a mais famosa homossexual daquela época, seu nome e o da ilhaonde viveu, deram origem ao “amor lesbiano”, ou lésbico, em substituição ao tribadismo.
Na sociedade grega, havia as hetairas para o prazer dos homens; as concubinas
para satisfazerem as necessidades diárias e as esposas que lhes davam filhos legítimos e administravam a casa.
As hetairas eram cortesãs de alto nível. Eram belas, talentosas, inteligentes e muitas vezes tinham conhecimentos de literatura clássica e em contas de lucros e perdas.
Apesar de serem de baixa origem, desde a infância eram treinadas nas artes sociais e aceitas pelas qualidades de suas mentes e pelos corpos voluptuosos. Os homens apreciavam as hetairas pelo fato de serem exímias em todas as coisas que aqueles mesmos homens proibiam que suas esposas aprendessem.
As hetairas sabiam que seus encantos não eram duradouros, ter muito dinheiro guardado, porém, era o objetivo que deveria norteá-las.
As concubinas, na escala social, vinham logo abaixo das hetairas. Elas não alcançavam nem a independência das hetairas nem a proteção assegurada à esposa. Quando o senhor se cansava delas podia vendê-las para um bordel, onde se poderia tê-las por uma pequena soma sem nenhum risco.
Outra figura da época era a prostituta de rua, identificada assim por calçar sandálias onde estava impressa, no reverso da sola, uma mensagem, que se imprimia na terra, e podia assim ser lida: “siga-me”.
A prostituição floresceu muito em cidades onde havia intenso movimento de trânsito.
Corinto, com seus dois portos e ativo comércio marítimo, atraía mulheres para servir aos marinheiros em terra. Também o templo de Afrodite contava com mais de mil hetairas dedicadas ao serviço da deusa e de seus adoradores.
Entre os romanos era valorizado o corpo forte, o herói. Para eles, era importante a luta, a guerra, o poder, a força, o Direito e, a vida do povo, girava em torno desses valores.
Até o século V a.C., a maioria das romanas tinha uma existência de “rectidão inatacável”; porém no início do século II a.C., o poeta Juvenal disse que a castidade era uma virtude raramente observada em Roma.
Em Roma, esposa e filhos constituíam bens dos homens da família. No final do primeiro século a.C., o marido tinha o direito legal de matar a esposa no acto, caso fosse apanhada em adultério. Também poderia divorciar-se caso ela tivesse uma conduta perversa e repugnante, lassidão moral e sexual e ser estéril. Ter filhos e administrar a casa era considerado apenas parte das obrigações de uma mulher, pois esperava-se que ela participasse ativamente dos negócios da família.
As mulheres romanas tiveram uma vida menos confinada que as de outros países, entretanto, possuíam consciência de seu próprio valor, o que lhes davam grande confiança.
Em Roma, tradicionalmente havia três tipos de casamento: a confarreatio, semelhante aos casamentos religiosos da igreja católica; a coemptio, que assemelhava-se à moderna cerimônia civil; o usus, um tipo de casamento de experiência, em que os noivos só se uniam legalmente após um ano de vivência em comum. Durante este ano, a noiva pertencia à família paterna e, depois disso, passava a pertencer total e legalmente à do marido.
Como os romanos possuíam uma tendência belicosa, essa obrigava-os a ficar fora de casa por um longo tempo, guerreando meses a fio. Daí surgiram os eunucos, homens castrados que acompanhavam as mulheres. Eram homens de boa aparência, sem capacidade sexual, que se tornavam leais aos patrões, os quais lhes poderiam tornar ricos ou colocá-los em postos de destaque.
Em 131 a.C., as mulheres podiam divorciar-se do marido por quase nenhum motivo e isso acontecia com crescente e entusiasmada frequência. Entretanto, anos mais tarde, o Imperador Augusto instituiu uma lei, levando o adultério para o domínio público e introduzindo penalidades legais. Essas penalidades eram aplicadas principalmente contra as mulheres e, só mais tarde, é que os maridos adúlteros foram sujeitos às mesmas regras. As mulheres eram banidas de seus dotes constituindo-se ofensa criminal para qualquer homem casar-se com ela. Seu amante também era banido, embora não para a mesma ilha que a mulher em questão.
O romano era levado ao casamento pela perspectiva de um filho herdeiro, além da certeza de uma “transfusão” de dinheiro, feita pelo dote tradicional.
Naquela época havia um número bem maior de homens que mulheres. Isso devia-se a uma exigência das “leis de Rômulo”, que impunha aos pais que criassem todos os filhos homens e a primeira mulher a nascer.
Os bebês indesejados, os meninos ilegítimos, deformados ou cujo nascimento trazia maus presságios, podiam ser adotados e criados como escravos ou deixados à morte, em cestas expostas ao tempo. Mais tarde, o infanticídio foi proibido, embora a negligência materna tenha tido a mesma eficácia.
Em 18 a.C., os romanos tinham consciência dos riscos de uma natalidade baixa e, por isso, o Imperador Augusto decretou que as viúvas deveriam tornar-se a casar em dois anos e as divorciadas em 18 meses. Havia recompensas que encorajavam a natalidade, porém com essa lei, o adultério proliferou, mas não teve efeito sobre a taxa de nascimento.
Assim, o império romano foi se decompondo lentamente durante trezentos ou quatrocentos anos, já na Era Cristã. A escassez de mão-de-obra, a falta de policiamento das fronteiras, a má administração do império e a invasão dos bárbaros foram as causas mais importantes que levaram à desintegração do império romano.
Enquanto o império se fragmentava, a Igreja conseguia manter-se firme e bem  sucedida em unir a heterogeneidade reinante, pois durante as conquistas, os romanos haviam trazido prisioneiros de raças e culturas diferentes para Roma.
A Igreja demonstrava interesse pela estabilidade social através da moralidade cristã investida de autoridade religiosa. A lei moral empregada era respaldada por ameaças com o fogo do inferno e do fim do mundo, atingindo a todos indiscriminadamente. Essa moralidade era extraída de três fontes: de partes do Antigo Testamento, do Novo Testamento e dos comentários e meditações dos primitivos pensadores cristãos.
No século 1 d.C., São Paulo apontava que o celibato era superior ao casamento.
Mas, como o sexo com prostitutas era inadmissível, o sexo com as esposas poderia ser uma experiência religiosa aceitável. Paulo condenava a homossexualidade, o adultério e a prostituição e propunha um ideal de mulher, uma mulher submissa e obediente ao marido.
São Jerônimo, no século IV d.C., era antifeminista e defensor do celibato, associado ao ideal de virgindade. Desprezava o matrimônio, prezando a continência permanente e chamando o intercurso sexual de imundo, pois para ele, a mulher era “instrumento do demónio” para corromper os homens puros. Essa doutrina influenciou muito a Igreja primitiva e a sociedade medieval.
Foi Agostinho quem disseminou entre os padres da Igreja, um sentimento de que o acto sexual era fundamentalmente repulsivo e que a culpa não jazia em Deus, mas em Adão e Eva, quando esses caíram em pecado. Ele acreditava que a transgressão cometida por Adão e Eva persistia na humanidade e que sexo e luxúria eram tão vergonhosos da mesma forma que, toda criança dele nascida, nascia em pecado.
A moral sexual de Agostinho foi a base doutrinária da moral cristã e era extremamente rígida e negativa. Ele escreveu argumentos condenatórios contra a
anticoncepção com drogas, contra a interrupção do ato sexual, bem como todo tipo de relacionamento sexual.
Para os sacerdotes, a mulher, como um todo, e o homem, da cintura para baixo, eram impuros, vergonhosos, criações do demônio.
O celibato era o símbolo da autoridade moral. Contudo, nessa época, podiam ser aceites homens casados para ordenação; os solteiros, porém, não podiam casar-se depois de ordenados.
A homossexualidade era vista, pelos padres, como imunda; um perigo para o Estado e para a Igreja por ferir a moralidade cristã. No início do século IV o batismo era proibido ao homossexual, assim como a instrução na fé, embora esse desvio se fizesse presente entre os sacerdotes.
Em 567, sabedor disso, o Concílio de Tours reforçou a regra beneditina proibindoque dois monges dormissem na mesma cama, além de que, as lâmpadas deveriam permanecer acesas durante a noite.
A Igreja via o casamento como uma série de concessões à fraqueza humana – como necessidade de companheirismo, sexo e filhos, e fazia o possível para combatê-lo.
De acordo com Tannahill (1983, p.158),
“Certos teólogos recomendavam a abstenção nas quintas-feiras, em memória da prisão de Cristo; nas sextas-feiras, em memória de sua morte; aos sábados, em honra à Virgem Maria; aos domingos, em homenagem à Ressurreição e às segundas-feiras em comemoração aos mortos. As terças e quartas-feiras eram amplamente abrangidas por uma proibição de intercurso durante jejuns e festivais – os quarenta dias antes da Páscoa, Pentecostes e Natal; os sete, cinco ou três dias antes da Comunhão, e aí por diante.”
O cristianismo instaurou uma melhoria na posição das mulheres. Se por um lado, a impossibilidade de gerar filhos não era motivo para o divórcio, por outro, seu status legal e social praticamente não se alterou.
As penitências não eram o produto de algum órgão central, e sim elaboradas por autores que pareciam ter um amplo conhecimento teórico sobre as excentricidades sexuais. As penitências variavam e constituíam-se de jejuns, de abstinência de comida e bebida, de sexo e de tudo que fosse compreendido como auto-indulgência. No decorrer do tempo, avolumaram-se os preceitos e dogmas repressores e normatizadores da sexualidade, tanto procriativa como matrimonial. Contudo, a Igreja não conseguiu conter a sexualidade entre as classes populares. Proliferaram as relações primárias, comunitárias. As casas não possuíam quartos separados entre homens e mulheres; a linguagem era rica e picante, as músicas, as danças, as piadas enfim, deixavam transparecer a voluptuosidade e a sexualidade. Sexo com animais, sexo entre clérigos, tudo era proibido, porém continuamente praticado. Os banhos públicos e a nudez, no entanto, ainda eram comuns.
Enquanto os clérigos advogavam a abstinência sexual como o único caminho para o céu, os homens, do mundo asiático, tinham uma concepção sobre a sexualidade totalmente oposta.
Os chineses proclamavam que quanto mais fossem as mulheres com quem um homem mantivesse relações sexuais, maiores seriam os benefícios decorridos do acto. Essa era uma das doutrinas do Tao, o “Caminho”, a “Senda Suprema da Natureza”, uma filosofia que impregnou todo o pensamento e a sociedade chinesapor mais de 2000 anos.
Seus seguidores acreditavam que a longevidade, a felicidade e a imortalidade seriam alcançadas se os homens pudessem aprender a viver em perfeita harmonia com a natureza. Segundo eles, todos os elementos da natureza se encontram em permanente estado de avanço ou recuo, de expansão ou contração; “não existe activo sem um passivo correspondente; nenhum positivo sem um negativo compensador”. Daí, a interação entre a força passiva yin, e a ativa yang, que se fundiam para impulsionar o ch’i – a essência vital, o hálito da vida, o Caminho, o Tao.
Segundo Tannahill (1983, p.180),
“como havia sido o exercício da mente e da vontade que tinha levado a humanidade a desviar-se da Senda natural, as disciplinas que a levariam de volta a ela teriam que ser, necessariamente, disciplinas do corpo. Uma das mais importantes dessas disciplinas era, sem dúvida, o sexo, cuja relevância tinha fácil explicação, sem necessidade de apelar-se para o simbolismo demasiado obscuro. Pouco esforço de imaginação era requerido para reconhecer-se que o intercurso sexual era o equivalente humano da interação entre as forças cósmicas entre o yin e yang.”
Segundo os chineses, o sexo era um dever sagrado que deveria ser executado com certa frequência e de modo consciente para realmente se alcançar a harmonia com a Senda Suprema. Sendo esse o caminho para o céu, não havia motivo para silenciar-se a respeito, daí surgindo os primeiros e mais detalhados manuais de sexo conhecidos no mundo. Tais livros eram um trabalho sério, com o objetivo de educar seus leitores na maneira de alcançarem a harmonia entre o yin e o yang. Os manuais chineses foram divididos em seis partes, segundo Tannahill (1983, p.183),
“a primeira abrangia comentários introdutórios sobre o significado cósmico do encontro sexual; em seguida, vinham recomendações sobre as carícias preliminares; depois uma descrição do ato do intercurso, incluindo técnicas e posições aprovadas. Tendo sidomanejado o lado prático, seguiam-se seções sobre o valor terapêutico do sexo, como escolher a mulher certa e como ela deveria conduzir-se durante a gravidez. A última parte continha receitas e prescrições úteis.”
A harmonia entre o yin e o yang era a preocupação máxima dos manuais, sendo o intercurso o primeiro passo para alcançá-la. Essa filosofia demonstrava um interesse maior nas propriedades cósmicas do sêmen de um homem do que nas humanas reprodutoras, porém reconhecia que o desejo de produzir filhos era um fato natural.
De acordo com Tannahill (1983, p.187), os chineses acreditavam que se um homem mantivesse relações sexuais com várias mulheres durante uma noite, isso seria benéfico, pois caso contrário, a energia vital da mulher enfraqueceria e esta não ofereceria condições de satisfazê-lo.
Quando um homem se privava de sexo, os chineses acreditavam que sua mente ficaria irrequieta e que o espírito sofreria, daí a importância de tanto o homem quanto a mulher demonstrarem boa disposição e ânimo.
As mulheres poderiam não ser belas, mas deveriam ser agradáveis, bem educadas, miúdas, rechonchudas, bem feitas de corpo e, de preferência, que não tivessem atingido a maturidade. Os manuais traziam sérias recomendações e técnicas que deveriam ser utilizadas com uma parceira de primeira vez. Deveria haver, no acto sexual, ternura, consideração, exploração, suaves carícias, palavras tranquilizadoras e beijos delicados. Os beijos somente poderiam ser dados em ambientes íntimos, jamais praticados em lugares públicos. Uma mulher que fosse beijada por um homem em público estaria agindo como uma prostituta barata.
A masturbação era permitida às mulheres, pois seu suprimento de yin era inexaurível, por outro lado, era condenada para os homens pelo desperdício que acarretava. Os chineses temiam a ejaculação noturna, pois acreditavam que algum espírito, disfarçado de mulher, vinha roubar-lhe a energia yang, através do intercurso durante o sono.
Os chineses não se opunham à realização do sexo grupal, sendo comum por volta do século IV. Um verdadeiro exército de homens usava uma faixa de cor amarela em volta da cabeça e praticava disciplinas sexuais grupais em noites de lua cheia. O sexo era praticado em grupo com a finalidade de ficarem “shih tsui”, isto é, isentos de culpa.
A homossexualidade masculina era permitida. Vários imperadores da dinastia Han eram mais bissexuais que propriamente homossexuais. Anos mais tarde, os chineses passaram a acreditar que pais bissexuais, geralmente tinham filhos hermafroditas ou monstros antinaturais, capazes dos crimes mais hediondos.
Aceitava-se o lesbianismo com indiferença, pois esse era o resultado da convivência natural das numerosas esposas e concubinas que viviam juntas nos aposentos das mulheres.
Com o passar do tempo, o conhecimento dos manuais chineses diminuiu e os acessórios mecânicos para satisfação sexual, assim como as drogas usadas como afrodisíacos, começaram a ser inventados e utilizados tanto pelos homens quanto pelas mulheres.
Por volta do século II a.C., o pensamento de Confúcio começa a ganhar força e se opunha a tudo o que os taoístas acreditavam como verdadeiro. O confucionismo surge para satisfazer às necessidades da sociedade e do Estado.
Um dos elementos principais do confucionismo era a família, que deveria ser ordenada e unida de acordo com o conceito taoísta da criação.
O homem deveria ser o elo de ligação entre seus ancestrais e seus filhos. As mulheres eram consideradas inferiores e se constituíam numa necessidade biológica para a produção de filhos homens, os quais iriam continuar administrando as necessidades “dos ancestrais”.
O desejo por filhos homens, o sistema polígamo, o sexo e proporção de classes da população eram todos interdependentes. Um chefe de família de classe média possuía entre três e doze esposas e concubinas, enquanto os membros da nobreza chegavam a possuir trinta ou mais.
O casamento era arranjado e o intermediário verificava se a descrição da propriedade correspondia à realidade, isto é, se a mulher era virgem intacta, não possuía nenhuma debilidade estrutural evidente, pais aceitáveis e nenhum impedimento legal ou social para o preço ser fixado. Os direitos, de cada esposa ou concubina, tinham de ser respeitados, pois era um dever do marido prover suas mulheres não somente economicamente, como também emocional e sexualmente.
As mulheres só se encontravam com os maridos à hora das refeições ou na cama, já que os homens acreditavam que a participação delas nos assuntos públicos era a raiz de todos os males. O homem que não fosse capaz de manter a própria casa em ordem, não seria capaz de assumir um posto de responsabilidade oficial.
As mulheres respeitáveis eram iletradas, visto que saber ler e escrever eram as ferramentas das prostitutas. Geralmente, o marido chinês recorria a prostitutas, não para o relacionamento sexual, mas para fugir dele. Nos “aposentos verdes”, os bordéis, como eram chamados, eles encontravam calma e relaxamento, boa comida e bebida, música, dança e uma noite de hospitalidade. As cortesãs eram rápidas e ansiosas para aprender tudo o que os maridos não comentavam com as esposas: literatura, filosofia, negócios e política – temas ausentes da educação de uma jovem bem-nascida.
O palácio real chinês contava com centenas de ocupantes para satisfazer o rei sexualmente. Além da rainha, lá viviam três consortes, nove esposas de segundacategoria, 27 esposas de terceira categoria e 81 concubinas, o que tornou necessária a presença de várias damas da corte empregadas como “secretárias de sexo”. As empregadas tinham como objetivo organizar a programação e ter sempre atualizada a data e a hora das uniões, os períodos menstruais, indícios de gravidez e outras. Elas também asseguravam que o rei mantivesse relações com a parceira certa, no dia certo e com a frequência certa. Em primeiro lugar, o rei deveria manter relações com as de categoria mais baixa, até chegar à rainha, que o encontrava uma vez por mês, quando a energia vital do marido já tivesse sido fortalecida pelo yin de suas inferiores. Quando uma jovem era escolhida para dormir com o Imperador recebia um anel de prata para ser colocado na mão esquerda após as relações sexuais. Se a jovem concebesse, receberia um anel de ouro.
Nos últimos anos do século XIII, os chineses começaram a desenvolver um novo puritanismo, sendo uma de suas expressões a Tábua de Méritos e Deméritos, que enumerava os bons atos contra os maus, avaliando cada um de acordo com uma base moral. Um composto filosófico incorporando as teorias dos sábios taoístas e budistas, começou a restringir a sociedade chinesa com tendências de moralidade.
Na sociedade indiana, o mais famoso manual de sexo, o Kamasutra, atribuído ao sábio Vatsyayana, surgiu por volta do terceiro e quinto séculos d.C. e apresenta algumas semelhanças com seus predecessores. O Kamasutra foi um produto da Índia de seu tempo e, suas qualidades especiais, foram características da sociedade indiana e do tipo de mente por ela modelado.
Na época do Kamasutra, a sociedade era dividida em quatro classes desiguais (os brâmanes eram superiores aos kshatriyas, os kshatriyas aos vaisyas e os vaisyas aos sudras) e, todos eles eram superiores aos povos conquistados que não possuíam status algum.
O sistema sócio-religioso de classe dos Vedas caracteriza-se por um mundo de deuses e deusas elementares e era reforçado pela doutrina do Karma, ou transmigração da alma. Essa afirmava que, quando um ser vivo morria, se tivesse vivido corretamente dentro dos preceitos, a alma reencarnaria em um nível mais alto, caso contrário, em um nível mais baixo.
Para todos os indianos, havia Quatro Objetivos de vida unidos ao conceito de comportamento correto: o dharma, que significava satisfazer as obrigações religiosas, sociais e morais; o artha, a busca do sucesso mundano verdadeiro; o kama, a busca do prazer e do amor; e o moksha, a iluminação. Os Objetivos do dharma, artha e kama eram orientados para a melhoria do karma de cada indivíduo e, o sexo, era a maneira mais agradável, natural e virtuosa para alcançá-lo.
Segundo Tannahill (1983, p.219),
“o Kamasutra reconhecia quatro tipos de amor: havia o simples amor de intercurso, um hábito, uma droga, não diferente do amor de um jogador pelo jogo – e outro, uma adição separada aos aspectos específicos do sexo, como beijar, acariciar ou o intercurso oral. Havia então o amor consistindo de atração mútua entre duas pessoas, instintivo, espontâneo e possessivo. E, por fim, o tipo de amor unilateral, que frequentemente nasce da admiração do enamorado pela beleza da pessoa amada.”
O Kamasutra, ao separar o amor da sexualidade, fornecia apenas um guia de sexo e, segundo Vatsyayana, as regras nele contidas não se aplicavam às pessoas que realmente se amavam, ou para apontar as qualidades ditas para serem buscadas em uma esposa. O homem somente deveria casar-se com “outra jovem senão aquela a quem ama”.
A satisfação dos dois primeiros tipos de amor dependia particularmente da competência física, que poderia ser aperfeiçoada pela observância das regras e técnicas que haviam sido elaboradas ao longo dos séculos. Os verdadeiros enamorados, contudo, não precisavam de regras, tendo como professor somente os instintos.
Por volta do segundo e terceiro séculos d.C., o casamento ideal era aquele em que a idade da noiva era um terço da do noivo. Os livros propunham como idade ideal 8 e 24 anos respectivamente. Os indianos consideravam as jovens naturalmente libidinosas e prontas a perderem sua virgindade, daí a preocupação em ligá-las a um marido antes que o “mal” acontecesse. A esposa adolescente dependia do marido em todos os aspectos, emocional, intelectual e fisicamente, considerando-o como um ser absolutamente superior.
Na Índia a poligamia estava presente entre a realeza e os ricos. Até mesmo a poliginia era aceita quando a primeira esposa de um homem fosse estéril e, a poliandria, era praticada apenas em um sentido – um marido estéril transferia temporariamente seus deveres conjugais para outro mais forte sexualmente, de quem ele poderia esperar belos e vigorosos filhos, sem contudo que o casamento fosse desfeito.
Segundo os indianos, uma dona de casa deveria saber costurar, dançar, arrumar camas, tocar um instrumento musical, fazer colares, cantar, fabricar flores artificiais. Para agradar seu marido, ainda a mulher deveria estudar magia e feitiçaria, briga de galo, de codorna e de carneiro; que conhecesse as várias maneiras de jogar e que tivesse alguma destreza com a espada, bastão de esgrima bordão e arco-e-flecha.
Na Índia, o homem era intransigentemente o chefe da casa. A ideia de “família ampliada” ou “família conjunta”, era comum na Índia, pois filhos, filhas, tias, tios, primos, todos viviam unidos sob um mesmo tecto ou grupos de tectos, juntamente com os servos permanentes, que também tinham trazido as suas famílias para morarem com os patrões. Esse era um sistema que protegia, econômica e emocionalmente, os membros mais fracos do clã, afastando-os das tomadas de decisões mais importantes e da pobreza que assolava outras sociedades.
Quando o marido morria e o casamento ainda não havia sido consumado, as viúvas adolescentes eram proibidas de manterem relações sexuais pelo resto da vida. A viúva dormia no chão, alimentava-se somente de uma refeição diária, era impedida de usar cores, enfeites, perfumes e deveria raspar a cabeça. Seus dias eram dedicados à oração e aos ritos religiosos com a finalidade de que ela e o marido se casassem novamente numa outra encarnação.
Na Índia, grande parte da existência era vivida em público; havia privacidade para o corpo, mas raramente para a mente ou para as emoções. O sexo era natural, agradável, uma virtuosa busca para se alcançar o Terceiro Objectivo.
Como as cortesãs tinham como único objetivo propiciar amor e prazer, a gravidez sempre se tornava indesejável e, desta forma, era-lhes permitido praticar o  controlo de natalidade. Os indianos foram os primeiros a reconhecer o sal como um excelente material para evitar a concepção pelo seu efeito espermicida.
De acordo com Tota (1995, p.109), os árabes espalharam-se por todo o Mediterrâneo em início do período medieval e conquistaram a grande civilização da Pérsia. Na Pérsia, os árabes herdaram não apenas a sofisticada tradição da própria Pérsia como as ideias científicas gregas já abrandadas e modificadas pelo contato com o pensamento sírio, persa e hindu.
Entre os séculos VIII e XII, o Islão detinha em suas mãos todo a sabedoria do mundo conhecido – a medicina, os numerais hindus, experimentos científicos, fabricação chinesa de papel, sedas, vitrais, tapetes, tintas corantes, o arco em pontas da arquitetura, a escritura gótica, banhos públicos, hospitais seculares, a flauta – tornando-se os maiores intermediários culturais de um extremo a outro do mundo ocidental.
A sociedade islâmica conhecia somente dois tipos de mulheres: a cortesã, geralmente uma cantora, bonita, inteligente, talentosa e inconstante, e a dama, refinada, inacessível, que vivia confinada. Os principais deveres femininos – com exceção das damas da família imperial – eram permanecer escondidas e gerarem filhos. Muitas vezes as jovens eram mantidas em total reclusão que nem mesmo os servos as viam. Na cerimônia de casamento era permitido que o marido ficasse alguns minutos a sós com a noiva e lhe retirasse o véu para lhe ver o rosto pela primeira vez. Muitas vezes os casamentos não chegavam a consumar-se, pois uma vez a sós com a esposa, o marido informava-lhe que, em benefício da própria alma, decidia viver com ela como se fossem irmãos.
A poligamia era aceita, pois os homens acreditavam que a mensagem contida no Corão dava-lhes a liberdade para se casarem com um máximo de até quatro esposas, desde que fossem capazes de tratar as quatro com imparcial gentileza e respeito. Os que se sentissem despreparados ou sem condições, deveriam ter somente uma esposa e um número não especificado de concubinas.
As mulheres, segundo o Islão, tinham uma posição inferior ao homem, e todo o sofrimento a elas impingido era decorrente da transgressão cometida por Adão eEva.
Segundo Tannahill (1983, p.252-253),
“quando Eva comeu o fruto da árvore do Paraíso que Ele proibira, o Senhor, louvado seja, puniu as mulheres com dezoito coisas: menstruação; parturição; separação do pai e da mãe, e casamento com um estranho; gravidez; não ter controle sobre a própria pessoa; uma parte menor da herança; possibilidade de ser repudiada pelo divórcio e impossibilidade de pedir o divórcio; ser legal para os homens terem quatro esposas, mas para a mulher ter apenas um marido; o fato de ela ter que ficar confinada na casa; o fato de dever manter a cabeça coberta dentro de casa; o fato de o testemunho de duas só ser válido quando efetuado contra o testemunho de um homem; o fato de que ela não poderia sair de casa, a menos que acompanhada por um parente próximo; o fato de que os homens tomam parte nas preces da sexta-feira, dias festivos e funerais, enquanto que elas não podem fazê-lo; desqualificação para governar e julgar; o fato de que o mérito  tem mil componentes, somente um dos quais é atribuído às mulheres, enquanto novecentos e noventa e nove são atribuídos ao homem; o fato de que se as mulheres forem devassas, receberiam apenas metade do tormento da (restante) comunidade, no Dia da Ressurreição; o fato de que se seus maridos morrerem elas terão que observar um período de espera de quatro meses e dez dias antes de um novo casamento; o fato de que se seus maridos se divorciarem delas, elas terão que observar um período de espera de três meses ou três períodos menstruais antes de um novo casamento.”
Segundo a lei, nessa época era proibido, de acordo com o Profeta Maomé, que as esposas fossem discriminadas. Cada uma delas deveria ter seu quarto, apartamento ou casa separada, mantendo-as como virtuais prisioneiras.
As canções de amor-árabe contribuíram para cristalizar uma sensual imagem de mulher e, consequentemente, havia duas formas de canções de amor e duas escolas do próprio amor.
As escravas cantoras, altamente treinadas e cultas, floresceram em uma elite elegante e eram o alvo primário do amor-desejo. Cabia à dama conquistar o cavalheiro com sua espirituosidade e beleza, no entanto, usava de astúcia para retirar-lhe a fortuna, pois com o dinheiro podia comprar sua própria liberdade, segundo a lei muçulmana. No jogo do amor-desejo, o único rival sério da cortesã era o jovem de aproximadamente 18 anos, cuja atração os árabes sentiam fortemente assim como seus predecessores, os gregos.
O amor-puro era algo bem diferente, um jogo destinado a satisfazer as emoções dos homens. Graças ao véu e ao harém (harãm), o rosto, o corpo e a inteligência das mulheres eram desconhecidos do amante, pois o amor pertencia à mente, o sexo ao corpo, de modo que os árabes não viam razão para confundir os dois. Enquanto as cortesãs eram mulheres sedutoras, as heroínas do “amor-puro” não eram uma pessoa em absoluto e sim um ponto focal. Um harém podia conter de 300 a 1200 concubinas, atendentes e guardas, encarregadas das vestes, guardadoras dos banhos, das jóias e das despensas, leitoras do Corão, administradoras da mesa e outras. As jovens que ali viviam tinham sido compradas nos mercados de escravos ou presenteadas por seus captores ao sultão. Cada uma ocupava um lugar dentro do harém, dependendo da idade, da condição e de sua educação. Ao chegar, era designada a um chefe de departamento para aprender a bordar, preparar café, música ou contabilidade. Se a jovem jamais chegasse a chamar a atenção do sultão, permaneceria bordadeira, preparadora de café, instrumentista ou guarda-livros, ou receberia uma pensão e seria enviada ao harém de um sultão mais idoso. Por outro lado, se o sultão se interessasse pela jovem, essa era separada das demais, recebendo aposentos privados e criados. Ao ser convocada, era enviada aos banhos do harém, para ser banhada, massagada e perfumada. Recebia vestidos riquíssimos, jóias e era levada ao quarto do sultão. Alguns demonstravam um interesse muito grande por moças virgens e nunca convocavam a mesma jovem duas vezes. Outros usavam as concubinas por motivos dinásticos ou preferiam rapazes pelo simples prazer sexual.
A esposa ou concubina poderia ser repudiada, mas a mãe do sultão ocupava um lugar de honra dentro do harém. Era ela quem o dirigia com autoridade e todas as jovens almejavam ocupar a sua posição, que não poderia ser alcançada senão após a morte do sultão, pai de seu filho.
Os árabes não seguiam a linha de primogenitura, mas de prioridade tribal (califa) em questão de sucessão. A mulher que lhe desse um filho, era normalmente elevada à condição de kadin, tendo inúmeros privilégios. A posição de kadin era mutável, pois uma segunda kadin poderia ultrapassar a primeira, sem contudo chegar a ocupar o lugar de Sultana Valideh (mãe do sultão). Entretanto, a kadin poderia fazer de tudo para que seu filho aparecesse aos olhos do sultão para que, mais tarde, pudesse substituí-lo no harém.
Como os sultões não poderiam levar para a cama uma das suas concubinas mais de uma ou duas vezes por ano, isso tornava o harém entediado e difícil de ser controlado e guardado. A tarefa de acalmar os ânimos era confiada aos eunucos (palavra derivada do grego, significando “aquele que cuida da cama”) homens emasculados que serviam ao sultão com lealdade.
Os eunucos eram homens que tinham sido desprovidos de seus órgãos sexuais externos ou de parte deles, para beneficiar-se das vantagens e oportunidades oferecidas pelos serviços no harém. Eram excelentes cavaleiros, lanceiros e exerciam suas atividades esperando conquistar melhores posições e tornarem-se ricos. No palácio real, eram os eunucos negros que se encarregavam da guarda do harém, sendo brancos os que serviam nos aposentos do sultão, o selãmlik. Os eunucos da África sofriam a mutilação de todos os órgãos externos enquanto oseunucos brancos, que no século XV, vinham principalmente da Hungria, Alemanha, e Geórgia, em geral, haviam perdido apenas os testículos. O reinado dos eunucos durou tanto quanto o dos seus senhores, ou seja, até as primeiras décadas do século XX.
Embora a Igreja Cristã continuasse desaprovando tanto as mulheres quanto o sexo, o século XII começou a visualizar algumas mudanças. As Cruzadas, onde se combinavam as atrações da guerra, religião e pilhagem ajudaram, segundo Tannahill (1983, p.278), a “transformar a mulher da Idade da Grosseria na dama da Idade da Cavalaria”.
Durante este período, a autoridade do marido sobre a esposa faz parte do fundamento principal do matrimônio. A Igreja conferia ao marido a autoridade de chefe da família e à esposa, o dever de obediência ao seu senhor a fim de exercer sua função principal, que era gerar filhos. Os casamentos eram negociados para garantir o não empobrecimento das famílias. Por isso era comum a endogamia – casamento entre primos – a fim de não dividirem as riquezas e também a preocupação de limitar o número de filhos.
Até o final do século XI, as mulheres eram totalmente dependentes de seus pais, maridos e depois de seus filhos. Entretanto, durante o período das Cruzadas, com a partida de muitos cavaleiros, as mulheres viram-se obrigadas a cuidar das propriedades dos maridos, administrar as terras, impostos e dízimos, sendo encorajadas pela Igreja, que ajudou a estabilizar sua posição legal. A mulher transformava-se de Eva, a arquiteta da queda do homem, em Maria, a dama pura, inatingível e virtuosa. Nessa época, amor e casamento eram desvinculados. O sentimento de amor era reconhecido como sinal de fraqueza, principalmente para os homens, que apregoavam a resistência, a bravura e a coragem. No entanto, o amor tinha espaço para todo cavaleiro que se apaixonasse por uma dama inacessível.
Segundo Kolllontai (1978, p.111)
“o amor, como fator social, só era valorizado quando se tratava dos sentimentos de um cavaleiro pela mulher do outro, sentimentos que serviam de impulso para a realização de valentes façanhas. Quanto mais inacessível se achava a mulher escolhida, maior era o esforço realizado pelo cavaleiro para conquistar os seus favores, com as virtudes e qualidades apreciadas no seu mundo (intrepidez, resistência, tenacidade e bravura).”
Na metade do século XII, o jogo do amor palaciano, que começou como um conceito literário, logo se transferiu para o mundo da realidade. O amor palaciano tinha consciência de classe. Era uma espécie de caso amoroso idealizado entre uma dama de alto nascimento e um cavaleiro romântico, para preencher as horas de ócio.
As mulheres levavam uma vida monótona, pois seu senhor e seu séquito estavam fora de casa e elas ficavam somente na companhia dos jovens squires (fidalgos rurais) e dos cavaleiros empobrecidos. Essas damas pagavam aos trovadores, para que esses cantassem músicas de amor que tivessem algum significado para elas.
Os trovadores eram obrigados a imaginar um grande herói de nível inferior que lutava por tornar-se merecedor do amor da dama e que, finalmente, terminava apaixonando-se por ela. As canções de amor eram escritas em primeira pessoa, ficando fácil à dama assumir que o próprio trovador era o enamorado que dizia em versos aquilo que não ousava falar-lhe em prosa. Mesmo que a dama porventura viesse a corresponder ao amor de seu apaixonado, este amor tinha que ser mantido em segredo, objetivando resguardar a honra e a reputação da amada.
Segundo Tannahill, (1983, p.287), a convenção do amor palaciano existiu em três níveis:
“o dos homens, e por vezes mulheres, que compunham as canções; o dos trovadores (que também podiam ser compositores) que disseminavam, não apenas as canções, mas todo o sistema-ideia que as circundava, preenchendo mais ou menos a mesma função dos mass media de hoje; e o do mundo elegante, que se dedicava ao novo jogo do amor, seguindo as regras estipuladas nas letras das canções.”
Na maioria das vezes, o jogo amoroso a que se entregava o mundo elegante, seguia os padrões das canções proporcionando, dessa forma, a satisfação das necessidades do corpo e do espírito. Depois de trilharem o caminho do assédio, das falas amorosas, entrevistas ilícitas, beijos, carícias, abraços e admiração das perfeições nuas, parece ter sido impossível que trovador e dama pudessem conter-se.
Em princípios do século XII, também se desenvolveu o roman (romance) uma história rimada que conseguia fundir as histórias de amor com as de acção, transformando o amor em uma aventura e o cavaleiro em um cavaleiro errante, fazendo surgir, dessa forma, a instituição da cavalaria.
O amor palaciano assegurava virtude à dama enquanto a cavalaria lhe concedia a insígnia do comando. Assim, a idealização da figura feminina, forjada pela imaginação masculina, introduziu uma nova fase no relacionamento entre homens e mulheres.
No século XIII, S.Tomás de Aquino – Doctor Angelicus – juntamente com outros teólogos, defendia o matrimônio por duas razões: a primeira, por ser a única condição de se conceber filhos sem cometer pecado; e, a segunda, para resguardar os homens de problemas sexuais como a zoofilia, a homossexualidade, as práticas anormais durante as relações sexuais, masturbação, incesto, adultério, sedução e fornicação rotineira. Condenou o prazer carnal e o amor desenfreado ensinando que, se o marido e a mulher transgredissem a lei do matrimônio, estariam vulneráveis à vingança de Deus.
Tomás de Aquino acreditava que, beijos, toques e carícias poderiam acontecer, desde que não motivados pela luxúria. A ejaculação noturna também poderia ser perdoada se não fosse resultado de pensamentos lascivos. A Igreja acreditava não só nas visitas noturnas dos demónios, como também, que eram capazes de engravidar as mulheres a quem visitavam. Para esse fato a explicação era curiosa: sob a forma de súcubo, o demônio visitava um homem e retirava a semente; sob a forma de íncubo, visitava uma mulher para depositar-lhe aquela semente. Assim, era comum nascerem filhos de mulheres solteiras, viúvas e também casadas.
Sendo o casamento declarado um sacramento, tornava-se indissolúvel sob qualquer pretexto. O inferno era pregado como o lugar de pecadores, fornicadores, prostitutas e pervertidos sexuais. Padres e freiras, apanhados a pecar, eram queimados e enforcados. Homens e mulheres tinham seus órgãos genitais queimados.
Apesar de todas as proibições da Igreja, os homens continuaram a ser infiéis, pois de certo modo lhes era cobrada uma postura de macho. Quanto às mulheres, eram cobrados os valores femininos como a virgindade para as moças e a fidelidade para as casadas. No caso do adultério feminino cabia ao marido e à família desse fazer justiça e promover a vingança, pois o adultério era um erro abominável. O mesmo acontecia quando uma jovem era raptada; cabia a seus parentes homens encontrarem a solução.
Por volta do século XIV, na Itália, surgiu o cinto de castidade, uma proteção nãosomente contra o estupro, mas uma dádiva para os maridos que acreditavam que as mulheres eram libertinas por natureza. No entanto, com ou sem cinto de castidade, os historiadores confirmam que o século XV foi a era dos bastardos. Nas famílias nobres, os bastardos eram considerados como parte do pessoal da casa, cuidados junto com os filhos legítimos e recebiam pensão e herança quando seus pais faleciam. Entre os camponeses, o adultério era geralmente uma questão de impulso.
Nessa época, foram construídos inúmeros “lares de Madalena”, isto é, bordéis comuns, religiosos e seculares. Eram chamados de casas-de-banho ou lupanares. O surgimento dos inúmeros bordéis e de prostitutas provocou a disseminação da sífilis, um dos piores flagelos da sociedade. Nos registros oficiais das igrejas e das cortes, consta que de 1430 a 1550, a percentagem populacional era de cerca de 130 homens para cada 100 mulheres, sendo isso apontado como a causa determinante do alto número de adultérios ocorridos naquele período. As mulheres públicas, em Roma, chegavam a 7000 aproximadamente, as quais viviam em casas pertencentes aos mosteiros e igrejas e eram vistas constantemente desfilando pelas ruas em companhia de sacerdotes.
Quando o sistema feudal mostrou-se enfraquecido, passou a buscar novas formas de se garantir, adotando a centralização e a hierarquização do poder com formas políticas e ideológicas mais avançadas. A Igreja, por meio do terror, do medo, da tortura e da Inquisição contribuiu para a solidificação do poder que se espalhou por toda a Europa.
Os camponeses foram subjugados pelos senhores feudais assim como os membros de sua família. Além de serem submetidos à fome e à miséria, eram enquadrados nas normas de controlo e transformados em controladores de si mesmos. Tendo o corpo e a sexualidade do camponês sob seu jugo, os senhores feudais obtinham homens alienados, formatizados, incapazes de se rebelar contra a ordem imposta.
Paralelamente a esse massacre ao prazer, o mundo assiste ao surgimento de um
novo tempo, a Renascença. O humanismo renascentista considera a volta à cultura e aos ideais da antiguidade greco-romana, bem como a restauração e a valorização da dignidade do espírito humano. Um novo horizonte desponta no Ocidente e renascem as artes, as ciências, a literatura, o conhecimento e as transformações sociais e políticas.
A Renascença italiana foi um novo alvorecer não somente na cultura, mas na história das mulheres que passaram a desfrutar de uma posição igual à dos homens em todos os sentidos. Se a Idade Média inventou o cavaleiro, a Renascença inventou o cavalheiro, um homem de maneiras perfeitas e educadas. O amor passou a ser tema inspirador de todas as artes. A nudez do corpo feminino passou a ser representada como expressão de beleza e pureza contrariando o antigo dogma da inferioridade da mulher e a crença de que o corpo era algo “sujo, feio e lugar de pecado”.
Por volta do século XVI, a Europa foi abalada por inúmeros movimentos religiosos que contestavam abertamente os dogmas da Igreja Católica e a autoridade do Papa. A Reforma de Lutero reúne forças e mecanismos para se contrapor ao relaxamento moral em que se encontravam os padres e os bispos da Igreja Romana e, a partir de suas ideias, o casamento passou por transformações significativas.
Segundo Tannahill (1983, p.355), “na opinião de Lutero, a virgindade era indesejável, a continência anormal e a castidade ativamente perigosa”. Ele admitia ser o ato sexual uma necessidade vital referendando a vinculação sexo-procriação. Para ele, Deus concedia a misericórdia divina aos esposos e isso serviu como justificativa para seu casamento, já que os bispos e príncipes proibiam a união para os religiosos. Lutero aconselhava o divórcio embora não o achasse obrigatório. Também condenou as relações sexuais com amantes e prostitutas e a abertura de bordéis, pois esses criavam hábitos de libertinagem.
Enquanto a Reforma luterana se disseminava pela Alemanha, os franceses tentavam elaborar uma reforma mais pacífica, orientada pelos humanistas. Calvino, como Lutero, partia da salvação pela fé, mas suas conclusões eram bem mais radicais: o homem seria uma criatura miserável, corrompida e cheia de pecados; somente a fé poderia salvá-lo, embora essa salvação dependesse da vontade divina.
Calvino adotou um outro ponto de vista em relação ao casamento. Não via a mulher somente como geradora de filhos, nem como um recipiente para os desejos do homem, mas uma companheira inseparável para o resto da vida.
Como a situação da Igreja Católica era bastante difícil, pois perdera metade da Alemanha, toda a Inglaterra e os países escandinavos e estava em recuo na França, nos Países Baixos, na Áustria, na Boêmia e na Hungria, resolveu colocar uma barreira contra a crescente onda do protestantismo – surge assim a Contra-Reforma, ou a Reforma Católica.
De acordo com Cabral (1995, p.126),
“é Lutero quem, por primeiro desafia a estrutura sagrada do medievalismo – a Igreja romana, representada pelo papa. E esta por sua vez, sentindo-se ameaçada, promove a Contra-Reforma. Para tal, a Igreja agora identificada como católica reúne forças em seu próprio seio e se reorganiza a partir do Concílio de Trento (1545 a 1564), apresentando ao novo mundo que surgia sua face reformista.”
Com o Concílio de Trento reforça-se o rigor em relação à sexualidade, o celibato é reafirmado e a caça às bruxas é referendada com a ameaça do fogo do inferno. A Igreja, a partir do Concílio, reestabelece o sacramento do matrimônio, introduz novas exigências para o consentimento paterno para o casamento, referenda a virgindade e decreta que, pinturas e esculturas que levavam à luxúria deveriam ser condenadas.
Dessa forma, fortalece-se a “cultura da vergonha”, onde tudo é proibido. Católicos e protestantes passam a viver à sombra do pecado, principalmente os de ordem sexual. O corpo é culpado de todos os vícios e pecados restando somente vigiá-lo e puni-lo, reduzindo-o à total submissão. E, para alcançar tal intento, a confissão foi instituída como mecanismo de repressão.
O pecador poderia livrar-se de seus tormentos se ficasse de joelhos diante do confessor e relatasse detalhadamente sua intimidade, seus desejos, seus sonhos,seus gostos, seus prazeres, enfim tudo, para libertar-se do fogo do inferno.
Segundo Foucault (2003, p.59),
“quando a confissão não é espontânea ou imposta por algum imperativo interior, é extorquida, desencavam-na na alma ou arrancam-na ao corpo. A partir da Idade Média, a tortura a acompanha como uma sombra, e a sustenta quando ela se esquiva: gêmeos sinistros. Tanto a ternura mais desarmada quanto os mais sangrentos poderes têm necessidade de confissões. O homem, no Ocidente, tornou-se um animal confidente.”
Durante este período, há um avanço das técnicas e da organização da produção. Há o desenvolvimento e a exploração das minas de ferro, mais tarde utilizados na agricultura e na indústria; há exploração do cobre, do estanho e do chumbo; são criadas máquinas movidas a água e azenhas; a colaboração do compasso e o emprego de novas velas facilitaram as viagens por mares afastados, preparando o caminho para as grandes descobertas geográficas. Os europeus descobrem novos países, e abrem rotas seguras para distantes regiões do globo.
Quando os espanhóis chegaram à América pré-colombiana, separada da Europa por cerca de 8000 quilómetros de oceano e também por mais de 2000 anos de desenvolvimento técnico, político e filosófico, houve um preconceito e um julgamento racional dos povos que nela habitavam.
Segundo Tannahill (1983, p.314),
“canibalismo, sacrifício humano, incesto, abuso de drogas, embriaguez, sodomia, adultério, roubo, assassinato [...]. O único pecado que os espanhóis não atribuíram instantaneamente aos incas e astecas foi a heresia, e isto porque eles não podiam, por definição, ser pagãos e heréticos ao mesmo tempo.”
De acordo com os pecados que lhes eram atribuídos, os índios pareciam não ser melhores que os animais selvagens e por isso, os espanhóis acreditavam que, criaturas irracionais, não poderiam ter domínios, porque domínio significava ter direitos. Em maio de 1493, o papa espanhol, Alexandre VI, ao expedir as bulas Intercetera, concedia à Espanha o domínio sobre a maior parte do Novo Mundo com a condição de que os habitantes fossem instruídos na fé católica. Isso acabou gerando um conflito entre o Estado e a Igreja, pois as criaturas, ditas “irracionais”, eram incapazes de receber a instrução.
Ao chegaram à América encontraram três centros principais de cultura: os astecas, no vale do México, os incas, no Peru e um terceiro, já em fase de desintegração, os maias de Iucatan, entre o Caribe e o Golfo do México.
Os maias foram os primeiros povos a serem encontrados pelos espanhóis. Os maias reconheciam a homossexualidade adolescente em detrimento da heterossexualidade.
Enquanto um rapaz não tinha idade suficiente para se casar, era comum que os pais providenciassem um escravo jovem para a satisfação de suas necessidades. Se o jovem mantivesse relações com uma jovem solteira, era obrigado a pagar uma multa; caso a jovem fosse virgem, seguia-se rapidamente o casamento.
A lei asteca proibia a homossexualidade e punia com pena de morte, homens, mulheres e os travestis. A lei era reforçada por regulares caças aos homossexuais que eram queimados ou pendurados a troncos até que morressem.
Os astecas puniam o sexo não produtivo e condenavam à morte quem cometesse o aborto. Os jovens eram encorajados a se casar mais cedo (14 ou 15 anos para as jovens e 20 para o rapaz) e, caso a união não desse certo, poderia ocorrer o divórcio e um novo casamento. Os reis astecas praticavam a poligamia, enquanto as classes mais baixas e pobres, eram monógamas por necessidade.
Segundo Tannahill (1983, p.332), algumas mulheres astecas, que não quisessem se casar, poderiam tornar-se fiandeiras, tecelãs, pintoras, curandeiras, parteiras, cozinheiras ou prostitutas. A mulher pública era bem aceita nas cidades e arrumava-se cuidadosamente “parecendo uma rosa” (rosa de mexicale) ao terminar de aprontar-se. Os homens que frequentavam os bordéis entregavam-se inicialmente à autoflagelação com talos de relva com a finalidade de realizar uma limpeza pessoal e ritual. Em seguida, praticavam “muitas obscenidades e pecados”.
No Peru, quando os espanhóis chegaram, a homossexualidade já havia sido rigorosamente suprimida. Todo sodomita encontrado, assim como os suspeitos acusados por evidência circunstancial, deveriam ser mortos em praça pública. Seu corpo era arrastado, enforcado e queimado com todas as suas roupas para simbolizar destruição completa.
O trabalho árduo e o casamento eram os pilares da política Inca, sendo punidos os ociosos e vadios. A nenhum homem era permitido ficar solteiro e deveria ter cerca de cinquenta mulheres ao seu serviço. Ao pai cabia fornecer maridos a suas filhas, providenciar um terreno, construir e mobilar uma casa para o jovem casal.
Esses deveriam ser adultos (18 a 20 anos para as moças e 24 para o rapaz) e responsáveis para assumir o casamento, pois era proibido o divórcio ou uma esposa secundária, caso a primeira morresse. Era comum que o filho mais velho assumisse a responsabilidade quanto às damas paternas.
O harém do imperador Inca era abastecido por funcionários do governo, que selecionavam as mais belas meninas de dez anos do reino. As acllacuna, ou “mulheres escolhidas”, eram separadas de suas famílias e conduzidas aos conventos especiais e, quatro a cinco anos mais tarde, suas qualidades eram reavaliadas. O Inca fazia a sua escolha entre as jovens, distribuía alguma entre alguns homens e despachava as outras para se tornarem “Virgens do Sol”, freiras que juravam castidade absoluta. Caso faltassem ao juramento eram mortas, mas se alegassem que o pai de seu filho era o Sol, eram poupadas.
O Inca alegava ser um descendente directo do Sol e para manter a pureza da descendência, esse somente poderia casar-se com outra descendente do Sol, nesse caso sua irmã. Entre o povo, era castigado quem praticasse o incesto, o estupro, o adultério e o aborto. As prostitutas eram proibidas de permanecer nas cidades e aldeias, mas admitidas no campo, sendo chamadas de “mulheres dos lugares desabitados”.
Percebendo que a homossexualidade era comum, na época da conquista, a Igreja armou os seus padres com perguntas apropriadas a serem formuladas no confessionário. As confissões, assim como as penitências, abrandavam os pecados sexuais. Os sermões proferidos aos índios convertidos pregavam o fogo do inferno e a pena de morte caso praticassem a sodomia, isto é, pecassem com outro homem, menino ou animal.
Os conquistadores espanhóis que chegaram à América eram jovens aventureiros que partiam da Europa, em busca de riquezas para seus países e para si próprios.
Faziam viagens ultramarinas indo e vindo pelo Atlântico, mas era proibido, pelo rei espanhol, que suas esposas os acompanhassem. Isto, inevitavelmente facilitou as relações sexuais entre homens espanhóis e mulheres ameríndias. Algumas vezes
os contactos eram casuais, em outras, eram ligações legalizadas entre oficiais e mulheres de alta classe. Os mestizos, que herdaram as características de ambos os pais foram geneticamente preparados para sobreviver e se tornarem os fundadores das novas raças que herdaram a América Central e do Sul actuais.
No século XVII, os europeus começaram a chegar à costa leste da América do Norte, tornando-se mais uma tribo, no meio de tantas outras. Não tinham o incentivo da prata ou do ouro, da seda ou das especiarias para travarem uma guerra contra os índios. Esses europeus dirigiram-se para a América com a imagem da “Pátria” a ser construída em solo estrangeiro.
Os europeus acreditavam que, se aquele ia ser o seu país, aquela tinha que ser a sua cultura. Como a cultura representada por peles escuras não fizera parte da Europa branca, também não faria parte da América branca. Assim, efetivamente separaram as pessoas brancas e de cor impedindo os inter-casamentos, os contatos sexuais ao nível de cliente e prostituta ou de violador e vítima.
Do mesmo modo que os espanhóis chegaram à América Central e os europeus à América do Norte, também os portugueses chegaram a um mundo muito antigo – a Índia – abrindo uma rota marítima da Europa ocidental para a fonte das especiarias, que representava uma preciosa fonte na economia, rompendo o monopólio turcoveneziano.
Em Goa, na Índia, os portugueses começaram a criar um império baseado no comércio mantido pelo domínio das rotas marítimas e no desenvolvimento da população mestiça.
Quando os jesuítas também lá chegaram, em 1542, templos foram derrubados, livros sagrados destruídos, sacerdotes deportados e todos foram forçados a abraçar o cristianismo. Aos não cristãos era proibida a celebração dos casamentos em público e a monogamia foi imposta a todos. Os homens deveriam abandonar suas concubinas ou se casar com uma delas. Se possuíssem mais esposas, deveriam ficar com a primeira delas e repudiar as outras.
Os soldados e mercadores portugueses mostravam-se dispostos a irem para a cama com as mulheres indianas, especialmente as bailarinas e prostitutas do templo.
Muitas vezes, casavam-se com elas na Índia tendo outra esposa em Portugal.
Com o passar do tempo, os mestiços, filhos de indianas com os portugueses colonizadores, começaram a ser vistos como preguiçosos, efeminados e imprestáveis até mesmo como bucha de canhão. Qualquer mestiço que desejasse entrar para o exército, teria de apresentar um certificado comprovando ser filho ou neto de português nascido na Europa.
Assim como os portugueses, os ingleses também dominaram a Índia. Esta dominação teve início por volta de 1757 e terminou com a independência em 1947. Lá criaram uma população com um poder maior de resistência e modificaram a face do próprio hinduísmo, as leis e as tradições milenares da Índia.
Por volta de 1795, os ingleses tentaram proibir a prática do sati (morte voluntária por amor ou lealdade ao falecido) e o infanticídio feminino classificando-o como assassinato e também pôr um fim na poligamia hindu declarando-a como crime.
Durante os primeiros setenta anos de domínio inglês na Índia, era escasso o número de mulheres portuguesas, o que facilitou consideravelmente as relações com as mulheres nativas. Os mestiços ou eurasianos eram repudiados e impedidos de retornarem à comunidade hindu de sangue puro, fosse pelo casamento ou pela conversão à religião. Com isso, passaram a formar uma classe bastante expressiva, a qual recebia dos ingleses um tratamento diferenciado. Os mestiços eram empregados nos níveis técnicos e administrativos, como trabalhadores nas estradas e na polícia.
Foi o fervor evangélico que impeliu os jesuítas à longa viagem para a China por volta do século XVIII. Eles reconheceram que o confucionismo não era uma religião, mas um vasto código moral capaz de reconciliar-se com o cristianismo, atraindo o vasto império para o seio cristão.
Nesta época, na China, falar de sexo era pecaminoso, porque o confucionismo tanto era um código de maneiras como de moral. No entanto, a prática do sexo possuía tanto um significado espiritual quanto físico, desde que praticado no quarto de dormir.
A dinastia Ching, após a queda da dinastia Ming, impôs rígidos controlos e rígida censura, obrigando os chineses a manterem suas vidas particulares em silêncio e fazendo desaparecer as fontes do conhecimento tradicional a respeito das variações e refinamentos do sexo. Como resultado, o sexo na China tendeu a deteriorar-se para uma rotina destinada somente à produção de filhos.
Enquanto a China renunciava às práticas sexuais tradicionais, os japoneses, por sua vez, ajudaram a perpetuá-las. Os estrangeiros que visitaram o Japão entre os séculos XVI e XIX, puderam constatar o grande número de bordéis e cortesãs existentes no país. Estes locais ofereciam uma atmosfera aconchegante e animadora e, por vezes, abrangiam quarteirões inteiros. Eram conhecidos como a “Cidade sem Noite”, com seus próprios teatros, casas de chá, lojas, mercadores e cerca de 3000 cortesãs, as quais trajavam-se com vestes ricas e formais bordadas em ouro e prata, quimonos floridos e com os cabelos pesadamente carregados de enfeites e prendedores. Os encontros eram realizados nos restaurantes ou nas casas de chá, cujo entretenimento era oferecido pelas dançarinas, cantoras e musicistas conhecidas como geisha – a gueixa, que raramente apelava para a prostituição. A geisha nem sempre era mulher, pois sempre havia um geisha masculino a trabalhar nos maiores restaurantes de Tóquio.
De acordo com Cabral (1995, p.127), “se a Antiguidade foi o império da razão da natureza, e a Idade Média, o da razão de Deus, a Idade Moderna inaugura a supremacia da razão do homem”.
O Renascimento e a Reforma Protestante levaram os homens a questionarem os valores morais, padrões e concepções a respeito da mulher, do casamento e da própria sexualidade.
Nesse período, a aristocracia feudal via-se relegada a um segundo plano, pois no seu lugar, surgia a burguesia que se desenvolvia com vigor e poder, impondo seus novos princípios. Com princípios contrários à moral feudal, os burgueses impuseram uma radical individualização da família burguesa e, a colaboração, a principal característica da economia comunal, deu lugar à concorrência e à propriedade privada.
Sendo assim, iniciam-se novas relações de produção, caracterizadas pela exploração capitalista de um proletariado assalariado. Os camponeses expulsos de suas terras, artesãos, mercenários dos senhores feudais que ficaram desempregados e todos os oprimidos pelo regime feudal, mas que foram expropriados de seus meios de produção, viram-se obrigados a vender sua força de trabalho ao capitalista para não morrer de fome. A partir daí, o homem se torna escravo do trabalho como também se aliena nele. Reduz-se sua capacidade de percepção, de consciência de si mesmo e de análise do processo produtivo.
Segundo Marx (1984, p.412),
“[...] a manufatura se apodera da força individual de trabalho em suas raízes. Deforma o trabalhador monstruosamente levando-o artificialmente a desenvolver uma habilidade parcial, à custa da repressão de um mundo de instintos e capacidades produtivas, lembrando aquela prática das regiões platinas onde se mata um animal apenas para tirar-lhe a pele ou o sebo. Não só o trabalho é dividido e suas diferentes frações distribuídas entre os indivíduos, mas o próprio indivíduo é mutilado e transformado no aparelho automático de um trabalho parcial.”
Da mesma forma, Nunes (1997, p.93) comenta que, neste período,
“o sexo é reduzido ao privado e com fim procriativo. A concepção de racionalidade e eficiência burguesa soma-se a produtividade. O sexo, subjetivo, humano, prazeroso desaparece. O corpo é negado ao trabalho e na repressão sexual. O “eu” corporal não existe; existem, sim, a civilização e a máscara social. Sobre o sexo nasce a cultura da vergonha e do pecado em níveis tão profundos que nem mesmo a Idade Média tinha conseguido.”
O conceito “puritano” começava com a rígida disciplina familiar. A obediência, a solidariedade e a fecundidade eram os princípios que norteavam as famílias puritanas.
Nessa época, os homens se viam privados de mulheres e, quando essas eram suspeitas de algum ato imoral, eram castigadas cruelmente. Os fornicadores e os adúlteros eram obrigados a se confessar publicamente na igreja e também eram marcados. O pelourinho era a penalidade para o pai cujo primeiro filho nascesse cedo demais e os fracos de espírito poderiam ser queimados como feiticeiros ou enforcados. Numa época em que a palavra dos idosos era lei, cabia às mulheres sensatas permanecerem fora de vista.
A família nuclear consistia apenas de pais e filhos. O marido ao se casar desejava que a esposa fosse uma dona-de-casa eficiente, uma companheira racional, uma concubina não paga e uma competente mãe para seus filhos. O amor ainda tinha pouco a ver com o casamento. A mulher, nessa época somente deveria ceder ao homem e, sem lamentações, suportar as suas injustiças.
Ainda no século XVII, Fallopius, grande anatomista, havia inventado o condom (preservativo conhecido como camisinha) somente como proteção contra a sífilis.
Entretanto, no século XVIII esse começou a ser utilizado como contraceptivo, pois devido à grande mobilidade e deslocamentos frequentes, marinheiros,  cavalheiros, mercadores, advogados e caixeiros viajantes começaram a preferir a amante semioficial, segregada da família e mantida num apartamento ou casa alugada, gerando o nascimento de um grande número de filhos ilegítimos.
A grande descoberta de que a mulher era fértil e participava na fecundação com igual contribuição ao homem e não apenas como um vaso receptáculo, deu-se   somente no século XVIII, pois perceberam que os filhos, em geral, tanto se pareciam com as mães como com os pais. A mulher, a partir de então, passou da condição de inferioridade à de igualdade, de passiva para activa em relação ao homem.
Até o século XVIII, como acreditavam que o homem era o único responsável pela fecundação, várias teorias foram elaboradas sobre o fluido seminal masculino. No século IV a.C., Aristóteles pensava que o sémen fosse uma espécie de substância da alma que se misturava ao sangue menstrual da mulher para produzir a criança. A Igreja dizia ser um pecado desperdiçá-lo em qualquer outra finalidade que não a da procriação. Os chineses acreditavam que o desperdício de sémen levava o homem ao enfraquecimento geral e, o “desperdício” abrangia a homossexualidade, a masturbação e o coito por mais de uma vez na semana.
De acordo com Tannahill (1983, p.373), foi Sinibaldi, um escritor italiano, que publicou em 1642, a primeira obra padronizada na Europa sobre sexualidade, a Geneanthropeia, onde relacionava o desperdício seminal com prisão de ventre, gota, corcunda, mau-hálito e nariz vermelho. Cinquenta anos depois, ainda a medicina afirmava que o excesso de masturbação causava aos homens a cegueira e a epilepsia. Segundo a mesma autora, por volta do século XIX, Ellen White, fundadora dos Adventistas do Sétimo Dia, afirmava que a masturbação transformaria o homem em aleijado e imbecil.
Ainda segundo Tannahill (1983, p.375), a descoberta do microscópio possibilitou inúmeros estudos sobre os óvulos e espermatozoides elaborando teorias de reprodução, porém nenhuma delas explicava que ambos os pais pudessem contribuir para a hereditariedade física e intelectual dos filhos. Inúmeros estudos continuaram a ser elaborados até que Darwin revolucionou os conhecimentos com o seu estudo sobre “A origem das espécies”.
Apesar de todos esses avanços científicos, a sociedade do século XIX continuava a manter o puritanismo, o qual impunha seu tríplice decreto: a interdição, a inexistência e o mutismo. A burguesia mantinha um apego desenfreado à privacidade encerrando a sexualidade no domínio do lar.
De acordo com Foucault (2003, p.9),
“a sexualidade é cuidadosamente encerrada. Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir. Em torno do sexo se cala. O casal, legítimo e procriador, dita a lei. Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo. No espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo; o quarto dos pais. Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos.”
Na Inglaterra, mais precisamente no período vitoriano, o progresso das ciências e a sofisticação da técnica, com reflexos em todas as camadas sociais, criaram um ambiente propício para o surgimento de um tipo feminino cujo perfil se pode nitidamente traçar.
Nessa época, surge a necessidade de se buscar um ponto de equilíbrio entre o público e o privado, uma base que refletisse solidez e estabilidade. Essa base seria, naturalmente, o lar e, como representante elegeu-se alguém com as qualidades de guardião da moral e da castidade. A exigência de um anjo do lar fez nascer a mulher vitoriana.
A mulher, com o perfil assim delineado, tinha todo o apoio da rainha Vitória, que atribuía o sucesso de seu reinado à moralidade da corte e à harmonia da vida doméstica. Consequentemente, olhava o movimento em defesa dos Direitos da Mulher como ameaça à virtude do sexo frágil. Essa situação viria a repercutir, ainda de forma silenciosa, na vida privada, onde a repressão, principalmente a sexual, se agravaria intensamente.
Nesse mesmo período, a ideologia dominante era de que as únicas paixões sentidas pelas mulheres eram pelo lar, pelos filhos e deveres domésticos. A mulher deveria submeter-se ao marido só para satisfazê-lo e, se não fosse pelo prazer da maternidade, deveria preferir não ter atenção sexual. Acreditava-se que para a felicidade da sociedade as mulheres, com exceção das ninfomaníacas e das prostitutas, deveriam saber pouco ou serem indiferentes às necessidades sexuais.
Sendo a mulher excluída do mundo público dos negócios e recolhida ao mundo privado do lar, por injunções de uma sociedade fundada na diferença dos sexos, era de se esperar que as jovens de boa família recebessem uma educação destinada apenas a conquistar e a cativar algum pretendente. Uma lady deveria falar francês, italiano, tocar piano, dançar e bordar. As mulheres da alta classe média não queriam ou não podiam ensinar seus filhos, pois isso comprometia o status de que gozavam e, além disso, não estavam suficientemente preparadas. A solução encontrada era recorrer aos pensionatos da moda, cuja tarefa precípua era revestir a mulher de certo verniz cultural.
Segundo Tannahill (1983), os maridos protegiam-nas evitando a contaminação excessiva com o mundo lá fora e procuravam fazê-las feliz para resguardar a honra do matrimônio. Um mundo do qual as damas deveriam ser protegidas era o da medicina. O médico podia ser consultado na presença de um acompanhante e, nos casos extremos, era permitido o exame ginecológico, o qual era realizado sob um lençol em um aposento escurecido. Essa atitude impedia que o exame fosse realizado adequadamente e que as mulheres conhecessem alguma coisa sobre sua própria anatomia e fisiologia. A menstruação era raramente mencionada em consultas entre a paciente e o médico. Os vitorianos estavam convencidos de que o desejo sexual era raramente conhecido por uma mulher virtuosa, pois o orgasmo e a função do clitóris na relação sexual eram aspectos que somente diziam respeito às mulheres indecentes, as prostitutas.
De acordo com o mesmo autor, no século XIX, a burguesia, que já tinha conquistado o sucesso económico, almejava agora o status social e, um dos indícios de distinção social, era ter um número elevado de criados comandados pela dona de casa. Dessa forma, isso permitia que as mulheres da classe média tivessem um tempo maior para se dedicar às obras caritativas, compras, mexericos e cultivando etiquetas. A ênfase, contudo, recaía sobre a principal função da mulher, que era ser esposa e mãe. Contudo, as mulheres operárias não se preocupavam muito com o lugar da mulher na sociedade porque não podiam se dar a tal luxo. Eram escravas do salário, pois além de mal pagas, recebiam às vezes a metade do que ganhava um homem pelo mesmo trabalho.
A mulher vitoriana era suave, submissa e recatada sexualmente porque, no decorrer de sua vida, fora reprimida quanto à instrução e não possuía conhecimentos sobre o seu próprio corpo. Nas relações sexuais necessitava ser tratada com delicadeza e candura, porém os homens sentiam-se constrangidos e despreparados para a tarefa. Para eles era difícil manter relações sexuais com o “anjo do lar”, o que acabava comprometendo o seu desempenho. Além do mais, os homens não deveriam impor os seus desejos animais às esposas, sendo aconselhável as relações acontecerem somente uma vez por semana ou uma vez por mês e nunca durante o período menstrual ou a gravidez. Muitos homens acreditavam que prestavam um grande favor às esposas ao recorrerem às prostitutas para aliviar seus instintos.
Assim, a prostituição floresceu como nunca, pois o sexo mecânico, sem amor, sem fortes emoções não oferecia riscos e não era prejudicial à saúde.
As mulheres que se prostituíam eram as que necessitavam de dinheiro. Existiam as mulheres “carreiristas”, as profissionais, que viviam exclusivamente desse expediente; as viúvas ou mães solteiras que se prostituíam para ganhar o seu sustento e de seu filho e, as operárias das fábricas, que ganhavam salários abaixo da média precisando suplementá-los para continuarem vivendo. Essas mulheres podiam encontrar protectores entre os banqueiros, financistas, oficiais do exército e aristocratas de todas as nacionalidades. As cortesãs mais discretas, que conseguiam manter uma aparência de respeitabilidade, frequentavam os mais altos círculos da sociedade.
Contudo, o aumento desenfreado da prostituição provocou o surgimento das doenças venéreas como a sífilis e a blenorragia. Os homens vitorianos, descuidados, acabaram transmitindo as doenças para as esposas e para os filhos que já nasciam doentes. A medicina, na época, não conseguia fazer a distinção entre as duas doenças e as drogas utilizadas eram às vezes ineficientes. Com isso, o número de doentes aumentou em todas as partes do mundo, especialmente na Europa a na América.
Sérias medidas foram tomadas pelas autoridades para controlar o aumento das doenças venéreas e isto começou pelo controlo das prostitutas, que eram obrigadas a realizar exames médicos periódicos e, como várias não eram registradas em bordéis e exerciam suas atividades na clandestinidade, ficava muito difícil o controle da doença. A partir de 1864, foram assinados vários decretos sobre o controlo das doenças venéreas e decretos proibindo a prostituição. Pela primeira vez a polícia fazia um registro das prostitutas e decidia quem deveria estar presente nela. Quem resolvesse se prostituir e receber dinheiro por serviços sexuais era duramente perseguido.
O terror vitoriano pela doença venérea fez com que muitos homens procurassem manter relações sexuais com mulheres virgens, pois supunham que eram limpas.
Alguns bordéis iam procurar as mulheres nos terminais ferroviários, onde chegavam inúmeros trens vindo do interior, trazendo-as para procurar emprego como balconistas ou babás. Certos bordéis possuíam médicos que ofereciam certificados de virgindade aos clientes que costumavam pedir.
Apesar de a prostituição ser duramente combatida era comum encontrar, na metade do século XIX, meninas de 10 a 12 anos que agiam por conta própria, prostituindo-se. Muitas também eram mandadas pelos pais para conseguir o pão na rua, sem fazerem perguntas.
Por outro lado, não eram somente as jovens adolescentes ou adultas que atraíam a atenção dos homens. Havia senhores da sociedade, instruídos, que tomavam sob a sua proteção, jovens das classes mais humildes, com a finalidade de amá-los, ajudá-los e orientá-los. Entretanto, em 1885, a Lei de Emenda do Direito Criminal condenava à prisão todo aquele que tivesse um relacionamento homossexual privado ou consentido.
Por volta de 1890, a mulher começou a conscientizar-se de que tinha novas oportunidades, mas ao mesmo tempo sofria com a necessidade de tentar equilibrar uma carreira bem-sucedida e a vida familiar.
Grandes mudanças sociais ocorreram nesta época e, uma delas foi o direito ao voto. Vale ressaltar que este foi um movimento de luta demorado em que as mulheres exigiram e finalmente conseguiram conquistar o direito de voto. Em 1918, as mulheres inglesas com mais de 30 anos poderiam votar. No entanto, na América, este processo foi mais lento, pois era necessário conseguir um sólido apoio dentro dos próprios Estados e isto implicava não apenas em melhorar as condições das mulheres, mas em uma emenda à constituição federal.
As mulheres, ao adquirirem o direito de voto, realizaram inúmeras reformas.
Reivindicaram o ingresso às universidades e algumas profissões; ter propriedades e receber a custódia dos filhos em caso de divórcio; a abolição da escravidão; uma legislação para promover o bem-estar social e o controlo ao licenciamento de bebidas alcoólicas e da prostituição.
Por volta de 1920, a maioria das mulheres, em quase todos os países, já tinham conquistado o direito de voto. Lutavam por direitos iguais, justiça e igualdade, representando dessa forma, o final da supremacia masculina por mais de 5000 anos.
O mundo também assistiu a vários acontecimentos como a Greve Geral na Inglaterra em 1926, o colapso da Bolsa na América em 1929, a Depressão nos anos 30 e a 1ª Guerra Mundial de 1939 a 1945.
De acordo com Marcuse (1997), a racionalização do trabalho acentuada principalmente durante a Primeira Guerra Mundial e depois de seu término, incrementou as invenções. As mudanças tecnológicas modificaram o modo de ser e viver dos homens, o modo de pensar e sentir a vida. Essa nova forma de produção em massa significou um novo sistema de reprodução da força de trabalho, uma nova política de controlo e gerência do trabalho, uma nova sociedade. Nessa nova sociedade, o homem é incentivado a consumir, a ter.
A grande produção industrial lançou, principalmente sobre as mulheres, inúmeros e variados produtos de beleza, jóias baratas, discos, salões de danças, cafés, salas de chá, férias à beira-mar e em especial, o cinema hollywoodiano que incentivava o consumo, o glamour, o romance e sustentava a imagem do casamento como objetivo natural da mulher. De acordo com Tannahill (1983, p. 440), a “explosão de bebês”, que durou por mais de dez anos após a guerra, não impediu a insatisfação e a incompatibilidade entre os casais. Apesar das pequenas discussões, das tensões financeiras, dos problemas com os filhos e da rotina, a família da classe média não estava preparada para o divórcio e a admissão do próprio fracasso, por isso as famílias cresciam e mantinham-se juntas por “causa dos filhos”. Sem amor ou com amor, não se questionavam quanto aos danos da obrigatoriedade de viverem juntos até que “a morte os separassem”. Os maridos comumente procuravam a companhia das prostitutas e das amantes enquanto, as mulheres, mergulhavam nas neuroses.
Neste período, a Psicanálise e as teorias de Freud tornaram-se familiares tentando encorajar os descontentes a explorarem seus sentimentos íntimos.
Por volta dos anos 60, uma geração de adolescentes, nascida no pós-guerra, descobriu um mundo novo, diferente, sem restrições e rebelou-se contra a monotonia em que viviam seus pais. Monotonia não só política, mas também social e sexual. Sem atentar para as convenções, esses adolescentes – movimento hippie – criaram os seus próprios padrões de vida, obrigando as gerações mais velhas a se adaptarem a eles. A esse conjunto de manifestações que surgiram em diversos países, deu-se a contracultura, isto é, a busca por um outro tipo de vida.
Faziam parte desse novo comportamento, cabelos longos, roupas baseadas num misticismo oriental, músicas, drogas, o amor livre, o aborto, o homossexualismo, a nudez em público, a paz e o retorno à natureza.
Segundo Tannahill (1983), um exemplo dessa mudança aconteceu em relação ao casamento, pois em 1965 havia um divórcio para cada quatro casamentos, enquanto que em 1977, um divórcio para cada dois casamentos.
Durante anos, a Igreja e o Estado sempre estiveram envolvidos na questão do controlo da natalidade, por serem contra esta prática. Além dos motivos religiosos, a contracepção não se coadunava com a romantização da maternidade.
A classe médica, segundo Tannahill (1983, p.444), também afirmava que “uma mulher com quem seu marido pratique o que é chamado de cópula preventiva é, necessariamente, levada à condição mental de uma prostituta”. Mesmo assim, as mulheres utilizaram-se de diferentes meios, como o diafragma Mensinga, as injeções de estrogênio, progesterona ou testosterona, o DIU e a pílula  anticoncepcional, para evitar uma gravidez imposta pelos “maridos bêbados”. No entanto, foi somente a partir de 1970 que o mundo ocidental passou a aceitar a contracepção como um problema pessoal.
Para as mulheres, o surgimento da pílula anticoncepcional foi responsável por um comportamento sexual feminino mais liberal e, diante dessa liberação, da sua independência sexual, os homens começaram a adoptar uma nova postura frente aos relacionamentos sexuais.
Segundo Tannahill (1983, p.459),
“o homem começou a perder a calma. [...] ele foi batendo em retirada. O sexo casual perdeu muito de sua atração e os pesquisadores do início dos anos 70 descobriram que esse homem estava tendo intercurso com menos frequência, que se voltava mais para a masturbação e desenvolvia gosto pela pornografia, algo que, em meados da década assumia proporções epidêmicas. Uma parte dessa pornografia não passava de superficialidade erótica, mas os filmes proibidos eram destinados – barata, sórdida e sadisticamente – a alimentar o mais profundo ressentimento masculino (em geral reprimido) por sua própria incapacidade, vis-à-vis a imagem popular da mulher liberada.”
Também por volta dos anos 60 surgiu o Movimento de Liberação Gay, em que os homossexuais passaram a ser vistos com mais desconfiança e como ligações problemáticas. Esses buscavam o reconhecimento de seus direitos para poderem   enfrentar o preconceito e assumirem postura política na discussão dos grandes assuntos nacionais. Na área médica, o homossexualismo foi classificado como uma doença ou uma anomalia e, raramente era aceito socialmente. Quanto às mulheres, algumas se refugiaram no lesbianismo, outras no trabalho e a maioria em novelas, em livros best-sellers, onde homens apaixonados e dominadores levam as mulheres ao êxtase, ao orgasmo.
O casamento deixou de ocupar lugar no quadro feminista e surgiu um crescente número de casais unidos sem documentação legal e, caracterizando-se, pela fidelidade, dependência e possessividade como nos casamentos convencionais.
As mudanças ocorridas no âmbito do trabalho, na segunda metade do século XX, interferiram na formação do sujeito. O trabalhador deixa de ter o poder de decisão e de transformação. Há a fragmentação da produção e do consumo sob a gerência científica e dos especialistas em merchandising, o lazer e os conhecimentos são divididos em pequenas especialidades e a sexualidade também é fragmentada, destruída.
De acordo com Chauí (1984, p.156),
“para que o trabalho se torne central, valor e virtude, condenação e destino, a repressão dessexualiza e deserotiza o corpo, destrói as múltiplas zonas erógenas (cuja satisfação, se for conservada, será chamada de perversão, crime, imoralidade) e reduz a sexualidade exclusivamente à zona genital, com finalidade procriativa. A sociedade racionalizada é uma sociedade funcional, isto é, nela tudo o que existe, só tem direito à existência se for definido por uma função útil, adequada e aceita: a sexualidade será, então, a função especializada em procriar e função especializada de alguns órgãos do corpo.”
Nesse período o trabalhador considera normal viver dessa maneira tendo um tempo mínimo e um espaço mínimo para a sexualidade: algumas horas noturnas do leito conjugal, no quarto secreto do casal, num motel, num camping.
Ainda segundo Chauí (1984, p.157),
“como também as horas de lazer são controladas, porque estão ligadas ao consumo, assim como o consumo controla também os espaços de lazer, só restam duas saídas: o lazer exclui um tempo para a sexualidade, ou a coloca sob o controle do consumo, isto é, da pornografia, do motel, da sauna, da casa de massagem. Especialização do espaço e ilusão da sexualidade liberada.”
Assim, houve a proliferação da sexualidade “fabricada” pelo “poder”, com o objetivo de lucrar economicamente, por intermédio da medicina, da psiquiatria, da propaganda, da prostituição e da pornografia.
De acordo com Marcondes Filho (1994, p.60),
“o século XX é o período histórico marcado pela pulsão desenfreada da visão e a pornografia é o exemplo mais claro desse mecanismo. Ela, na medida em que se propôs, no campo da sexualidade, a mostrar o ato sexual como prática crua, fria, depurada de charme e do clima passional, quase como um fenômeno clínico, acabou por liquidar o próprio sabor e a magia do erotismo, reduzindo-o a meros atos e comportamentos mecânicos, repetitivos e viciados. Gozo neurótico e entediante. Anti-sexo.”
A indústria cultural, muito mais que revistas, moda, produtos de beleza, discos, vende um estilo de vida, ela ensina um jeito de ser. A indústria cultural institui códigos de sedução, de bom gosto, de saúde e de exercício da sexualidade. Ela constrói e legitima determinadas identidades sociais e desautoriza outras.
O homem pós-moderno busca aproveitar a vida ao máximo, experimentar fortes sentimentos de prazer e, secundariamente, evitar o desprazer. Os instintos devem ser “soltos” e satisfeitos, deve-se apenas “viver o momento”.
Segundo Nunes (1997, p.14),
“a paulatina implementação da influência dos veículos de comunicação, e dentre eles a televisão, refletem-se nos valores, nos comportamentos, na linguagem, no modo de vestir, nas músicas, nos filmes, nas formas de relacionamento. O acréscimo das descobertas científicas, os métodos anticoncepcionais ao alcance de todos, a indústria do sexo, a pornografia, tudo isso hoje é inegável que acaba transformando algumas concepções mais tradicionais.”
A sociedade da pós-modernidade é invadida pela propaganda erotizada que se materializa a todo instante, chamando a atenção do consumidor. Não importa qual seja o produto desde que a sensualidade esteja presente, pois essa ajuda a vender e a consolidar a marca.
De acordo com Nascimento (1999, p.87), “é impossível escapar a uma uniformização mais abrangente imposta pela indústria cultural. Esta universaliza e coletiviza os sujeitos para atender as exigências do consumo, ultrapassando as fronteiras nacionais e etárias”.
Nos anúncios, os corpos primam pela perfeição das formas e começa então a busca constante para atingir o ideal das deusas dos comerciais. O próprio corpo torna-se um instrumento com propriedades utilitárias e transforma-se num objecto de troca como outra mercadoria qualquer.
Actualmente, a figura feminina, na sociedade consumista, deixa a condição de ser humano com história de vida e transforma-se em símbolo de erotismo reforçando posturas machistas. O homem sente-se na obrigação de representar a figura do sedutor difundida pelos mass media desvalorizando as relações afectivas.
Segundo Fabiano (1998, p.161),
“a massificação cultural cumpre assim um papel de não elevar a consciência da massa mas, ao contrário, das mais diversas e ardilosas formas, fragmentar a subjetividade humana para nela introjectar uma objetividade ideológica que retroalimente a própria estrutura dominante. [...] a cultura que aí viceja passa a ser resultante de um pragmatismo em que a utilidade se impõe como a intenção primeira das aspirações e ações humanas. O próprio corpo instrumentaliza-se como propriedade utilitária e se objetifica num processo de troca. A sociedade começa então a caracterizar-se como uma sociedade de objetos: de bens descartáveis, de bens culturais [...].”
De acordo com Costa (1998, p.190),
“a produção de mensagens jornalísticas, a tendência ao sensacionalismo, a exploração do extraordinário, factual e contingente como referências para a codificação do enunciado, da titulação, podem conduzir em escala inimaginável a um certo estado de dessensibilização coletiva sobre problemas de ordem social ao invés de estimular a ação consciente. A indústria cultural, com a padronização dos produtos culturais, transnacionalização da imagem, sobretudo com a publicidade, criou a atmosfera espiritual para se pensar o mundo como um “todo articulado”. A combinação de imagem, som, movimento associados aos recursos da eletrónica e da informática permitiram apreensões formatizadas e coletivas de sentidos que, de maneira incisiva, contribuem para a reprodução da ordem social, para a formulação de um imaginário colectivo.”
Analisando-se a história da sexualidade em diferentes épocas, percebe-se que os relacionamentos amorosos e os impulsos sexuais válidos em determinada cultura, nem sempre foram aceitos por outra e vice-versa. O que era verdadeiro e legítimo numa civilização, passou a ser rejeitado e abominado por outra.
Os principais tabus que sustentavam o patriarcado há milênios caíram por terra, os géneros humanos se multiplicaram frutos de uma nova consciência sobre a própria sexualidade e frutos da tecnologia aplicada. As formas de relacionamento assumiram formas e facetas plurais e fluidas.
Vivemos numa Era pós-pílula, pós-liberação da mulher, pós-liberação gay, pós AIDS e pós Viagra. Todos os tabus possíveis de serem superados em relação ao sexo já o foram ou têm possibilidade de o serem. Isso quer dizer que cada qual pode, se quiser, viver plenamente sua própria sexualidade seja ela qual for.
Desta forma, podemos afirmar que a sexualidade sofreu a influência dos aspectos sociais, econômicos e culturais nas diferentes épocas históricas e que, o relacionamento homem/ mulher é o resultado das experiências acumuladas ao longo da vida.

Sem comentários:

Enviar um comentário